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Ayurveda e Colesterol: o vilão injustiçado

Grazie Prokopetz
26 de ago.
7 min de leitura

Atualizado: 31 de ago.

Garanto que se você ficar 2 minutos no balcão da farmácia vai presenciar um cliente comprando estatina para reduzir o colesterol e diminuir o risco cardiovascular. Em 2018, uma estimativa baseada em dados de 83 países apontava cerca de 145,8 milhões de pessoas usando estatinas.


Mas afinal: o que é colesterol? E por que ele ganhou a fama de grande inimigo do coração? (logo após o seu ex tóxico)


🥑 Primeiro: colesterol não é um veneno.

O colesterol é uma substância semelhante à gordura, presente em todas as células do nosso corpo. Precisamos dele para manter as membranas celulares, produzir hormônios esteroides, vitamina D e ácidos biliares, entre outras funções.


O problema não é simplesmente “ter colesterol”. O problema é ter determinadas lipoproteínas em excesso, especialmente LDL, dentro de um contexto metabólico que favoreça a formação de placas nas artérias.


💔 LDL e HDL: quem é quem?

Tecnicamente, LDL e HDL não são tipos diferentes de colesterol. São lipoproteínas, partículas que transportam colesterol e outros lipídios pelo sangue.


• HDL — o famoso “colesterol bom”

O HDL participa do transporte reverso do colesterol, levando colesterol dos tecidos de volta ao fígado, onde ele pode ser processado e eliminado.


• LDL — o famoso “colesterol ruim”

O LDL leva colesterol do fígado para os tecidos, onde ele é necessário. O problema aparece quando há partículas de LDL em excesso circulando e penetrando na parede arterial, contribuindo para a formação de placas ateroscleróticas.


Uma curiosidade importante: o LDL torna-se especialmente problemático quando sofre modificações por processos oxidativos. O LDL oxidado é mais facilmente retido na parede das artérias e contribui para a formação e progressão da placa aterosclerótica. Ou seja: não é apenas a quantidade de LDL, mas também o contexto metabólico em que ele circula que importa.



Ambos têm funções importantes. O problema é quando algum deles perde a noção do espaço pessoal e trazerm desequilíbrio.


❤️‍🩹 E por que colesterol alto preocupa?

Porque o excesso de determinadas lipoproteínas, principalmente LDL, pode contribuir para a formação de placas nas paredes das artérias. Com o tempo, essas placas podem estreitar os vasos e, quando uma placa se rompe e desencadeia a formação de um coágulo, o fluxo sanguíneo pode ser bloqueado.


É aí que entram problemas como:


🫀 doença coronariana e infarto

🧠 AVC

🦵 doença arterial periférica


E existe uma ironia importante: colesterol alto geralmente não dá sintoma. Você pode se sentir perfeitamente bem e ainda assim apresentar um perfil lipídico que merece atenção.


🧪 E os números?

De maneira geral, para adultos:

• LDL: abaixo de 100 mg/dL é considerado desejável para muitas pessoas.

• HDL: 60 mg/dL ou mais é considerado favorável; valores abaixo de 50 mg/dL em mulheres e abaixo de 40 mg/dL em homens são considerados baixos em algumas classificações.

•Triglicerídeos: abaixo de 150 mg/dL é considerado normal. Mas ganha estrelhinha dourada quem tiver abaixo de 100 mg/dL.


Uma forma simples de olhar o perfil lipídico* é calcular algumas proporções:

• LDL ÷ HDL → < 2 = muito bom | 2–3 = médio/adequado | > 3 = maior risco

• Colesterol total ÷ HDL → < 3,5 = muito bom | 3,5–5 = médio/adequado | > 5 = maior risco


(Para calcular, basta dividir o primeiro número pelo segundo.Ex.: LDL 90 ÷ HDL 60 = razão 1,5 — muito bom.)

*Essas razões ajudam a contextualizar o exame, mas não substituem a avaliação do LDL, não-HDL e do risco cardiovascular individual.


Mas atenção: valore laboratorial é igual cacoete: cada um tem o seu. A meta de LDL depende do risco cardiovascular individual. Para uma pessoa que já teve infarto, AVC ou possui determinadas condições de alto risco, por exemplo, a meta pode ser consideravelmente mais baixa. E por isso olhar apenas para o colesterol total — ou para uma simples razão entre HDL e LDL — pode ser insuficiente. O exame precisa ser interpretado dentro do contexto da pessoa.


🤷🏽 Mas como chegamos até aqui?

A história do colesterol é longa, e com muita fofoca e intrigas.


Durante o século XX, pesquisas relacionaram colesterol sanguíneo, gordura saturada e doença cardiovascular. A famosa hipótese ganhou enorme força e ajudou a transformar a gordura em uma das grandes vilãs da alimentação moderna. Em março de 1984, a Time publicou a famosa capa “Cholesterol. And Now the Bad News” (Colesterol. E a Notícia Ruim), repercutindo resultados do estudo LRC-CPPT, que investigava a redução do colesterol e seus efeitos sobre doença coronariana. Sabemos hoje que os resultados deste estudo foram manipulados para o benefício da indústria. Teoria da conspiração? Temos! Mas também entrego evidências: aqui


Hoje sabemos que não é correto transformar “gordura” em uma categoria única, assim como não é correto transformar colesterol em um inimigo absoluto. O efeito da gordura saturada, por exemplo, depende em parte do que entra no lugar dela na alimentação. Substituí-la por gorduras insaturadas pode ter efeitos diferentes de substituí-la por carboidratos refinados e açúcares.


Ou seja: a pergunta não deveria ser simplesmente: “Gordura faz mal?”

Mas: “Que gordura? Em que quantidade? Em qual contexto metabólico? E substituindo o quê?”


🥇 E o colesterol é importante para a saúde?


✨Muito. E muito mais do que sua rotina de skin care✨:


🧠 Sistema nervoso: o colesterol é componente importante das membranas celulares e da mielina, a estrutura que envolve e protege os nervos.

🩸 Membranas celulares: ajuda a manter a estrutura e a fluidez adequadas das membranas.

💪🏽 Produção hormonal: é precursor de vários hormônios esteroides.

☀️ Vitamina D: participa da via de produção da vitamina D.

🔥 Digestão: é utilizado na produção de ácidos biliares.


Precisamos de colesterol. O que precisamos evitar é o excesso de determinadas partículas lipoproteicas e, principalmente, o contexto metabólico que favorece a doença cardiovascular.


🌱 E o que o Ayurveda tem a dizer?


Aqui é onde eu brilho. Digo, seu agni brilha.


O Ayurveda não trabalha com colesterol, LDL e HDL como categorias diagnósticas tradicionais. Portanto, não devemos simplesmente pegar um exame moderno e dizer que “LDL alto = determinado dosha”. Mas podemos fazer uma leitura metabólica do problema.

E, nessa leitura, existem alguns passos fundamentais:


🔥 1. Agni.

Agni é seu poder de digerir, absorver e metabolizar o que consome. Fala também da seu microbioma gastrointestinal, que também tem seu papel nas funções citadas. Não basta apenas perguntar: “O que você está comendo?”. Precisamos perguntar também: “Como o seu organismo está processando aquilo que você come?”


Precisamos também cultivar um Agni equilibrado e funcional. A ideia não é simplesmente “comer uma coisa boa e esperar que ela resolva tudo”. É favorecer uma digestão e um metabolismo capazes de processar adequadamente aquilo que ingerimos, nutrir os tecidos e evitar acúmulos metabólicos.


É justamente por isso que, no Ayurveda, alimentação e metabolismo caminham juntos.

Não é apenas o que entra. É também o que o organismo consegue fazer com aquilo que entrou. E sobre isso eu já fiz um post inteiro: como cultivar um Agni forte e saudável.


🫒 2. Alimentação adequada


Óbvio, né?


🌰 priorizar fontes de gorduras insaturadas, como azeite, abacate, nozes e sementes;

🥦 aumentar a variedade de vegetais e incluir alimentos ricos em fibras;

🥣 Incluir alimentos que naturalmente ajudam reduzir colesterol: aveia, maçã, frutas cítricas...

🍬 reduzir o excesso de açúcar e carboidratos refinados;

🍞 observar especialmente os alimentos que favorecem aumento de triglicerídeos e piora da saúde metabólica;

🚫 reduzir gorduras trans e moderar o consumo de gorduras saturadas, de acordo com o contexto individual.

💊 A levedura de arroz vermelho tem se mostrado eficiente para reduzir o colesterol, mas precisa ter indicação de um profissional de saúde pois tem contraindicações.


🧬 E a genética?

Sim. A genética importa. Existem pessoas com predisposição genética importante para níveis elevados de LDL, incluindo condições como a hipercolesterolemia familiar.


Mas genética não significa destino. Inclusive, na maioria dos casos, como causa, ela está lá embaixo da lista, bem depois de alimentação e estilo de vida. Então não me venha culpando a genética exclusivamente para se escravizar a um remedinho e chutar o balde no que realmente importa: alimentação, atividade física, composição corporal, sono, estresse e metabolismo.



🧬 Estatinas

As estatinas são necessárias e muito importantes em determinados casos, especialmente quando o risco cardiovascular é elevado. Não sou contra estatinas — sou contra tratar o colesterol como vilão universal e, a partir daí, transformar estatina em solução universal.


Na minha visão, considerando o histórico de décadas de demonização do colesterol, elas são prescritas em excesso. E reduzir colesterol indiscriminadamente não é exatamente uma estratégia neutra: estamos falando de uma substância da qual o organismo precisa para cérebro e sistema nervoso, membranas celulares, hormônios, vitamina D e muito mais. Especialmente na velhice, quando não precisamos de menos cuidado com essas funções — precisamos de mais.



🖊️ E as famosas “canetas emagrecedoras”?

Os agonistas do receptor de GLP-1 — e medicamentos relacionados — mudaram bastante o tratamento da obesidade e, em determinadas populações, também demonstraram benefícios cardiovasculares. Mas isso não significa que sejam uma solução mágica para metabolismo.


A perda de peso pode envolver também perda de massa magra, e o uso desses medicamentos precisa ser acompanhado individualmente, especialmente quando há perda rápida de peso ou uso prolongado.


Na visão ayurvédica, esses tratamentos acabam enfraquecendo mais o seu agni (lembra?) o principal responsável por mandar seu colesterol pra onde ele deve ir e impedir que ele fique causando engarrafamento nas suas artérias.


Mas se você precisa desse suporte agora, é necessário continuar cuidando daquilo que sustenta a saúde metabólica: alimentação adequada, proteína suficiente, musculação ou outro estímulo muscular, movimento, sono, acompanhamento profissional e redobrar o cuidado com seu agni. (alguém tinha a palavra agni 35 X na cartela de bingo?)


E, claro: medicamento prescrito é medicamento para ser usado conforme a indicação e o acompanhamento do médico — não conforme a tendência da internet.


🧟‍♂️ No fim das contas...

A maior cagada que fazemos é sempre ter que procurar um único vilão. Primeiro foi a gordura, depois o glúten (Leia: Tudo sobre glúten, farinha, pão...), depois o açúcar. (esse é vilão real oficial. Leia: Reduzindo o desejo por açúcar)


O corpo humano é um tanto mais sofisticado do que isso. Saúde cardiovascular não é sobre demonizar um nutriente. É sobre compreender o metabolismo como um sistema.


Mil regras e modinhas surgem na internet todos os dias, confundindo o consumidor no que realmente faz sentido. Aí que a visão do Ayurveda e o conceito de agni vem pra descomplicar: “como o meu organismo está recebendo, processando, absorvendo, metabolizando e excretando aquilo que recebe?” A resposta está sempre SEMPRE no poder do seu agni. (Lá vem ela com agni de novo... 🙄)


À uma vida (e um agni) em equilíbrio,


Grazie Prokopetz

Doctor of Ayurveda


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